The Beatles.html

 
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The Beatles em 1964. Sentido horário de cima à esquerda:
John Lennon, Paul McCartney
Ringo Starr, George Harrison
Informação geral
Nome completo {{{Nome Completo}}}
Data de nascimento {{{nascimento}}}
Apelido {{{apelido}}}
Origem Liverpool, Inglaterra
País Reino Unido Reino Unido
Data de morte {{{falecimento}}}
Gêneros rock and roll, rock psicodélico, rock progressivo, pop rock, pop, hard rock, entre outros
Ocupação {{{ocupação}}}
Instrumentos {{{instrumento}}}
Instrumentos notáveis {{{instrumentos_notáveis}}}
Tipo vocal {{{tipo_vocal}}}
Período em atividade 1957-1960; 1960-1970
Outras ocupações {{{outras ocupações}}}
Gravadoras Parlophone, Capitol, Apple, Vee-Jay, Polydor, Odeon, Swan e Tollie.
Afiliações {{{afiliações}}}
Influências {{{influências}}}
Sítio oficial www.beatles.com
Integrantes
John Lennon (guitarra)
Paul McCartney (baixo)
Ringo Starr (bateria)
George Harrison (guitarra)
Ex-integrantes
Stu Sutcliffe (baixo)
Pete Best (bateria)

The Beatles foi uma banda de rock de Liverpool, Inglaterra, com suas raízes no final da década de 1950 e formada na década de 1960.[1][2] Constituído principalmente por Paul McCartney (baixo, piano e vocal), John Lennon (guitarra e vocais), George Harrison (guitarra solo e vocal) e Ringo Starr (bateria e vocal), o grupo é reconhecido por ter liderado a "Invasão Britânica" nos Estados Unidos, no início dos anos 1960.[3]

Embora inicialmente o estilo musical do grupo tenha sido influenciado pelo rock and roll e pelo skiffle de 1950, a banda explorou durante a carreira gêneros que vão de rock melódico à rock psicodélico.[a]' Os "garotos de Liverpool", ou "Fab Four" – "quarteto fabuloso" –,[4] como eram chamados, obtiveram fama, popularidade e notoriedade até hoje inéditas para uma banda musical, e tornaram-se a banda de maior sucesso e de maior influência do século XX.[5][6] Suas vestimentas, os cortes de cabelo, e sua crescente consciência social influenciaram a forma de ser dos jovens daquela geração; por causa disso, criou-se o termo beatlemania.[7][8]Após a banda se separar em 1970, todos os quatro membros iniciaram uma carreira solo de sucesso.

Considerado o grupo musical mais bem-sucedido da história, sendo os seus membros aclamados por público e crítica, com mais de um 1,5 bilhão de álbuns vendidos em todo o mundo[9], e com vinte canções que atingiram o primeiro lugar nas paradas de sucesso apenas nos Estados Unidos da América[10], além de conseguirem ocupar em determinado momento os cinco primeiros lugares em meados de 1964[11] — números recordes até os dias atuais — os Beatles influenciaram e influenciam bandas do mundo todo. Pela inventiva criatividade e originalidade em suas canções, John Lennon e Paul McCartney criaram a mais celebrada e famosa dupla musical de todo o planeta.

Os Beatles incluíram em sua carreira feitos que influenciaram todas as gerações seguintes: foram os precursores da música indiana no pop/rock ocidental;[12] foram a primeira banda a fazer vídeos musicais de suas canções, e o álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band foi o primeiro do mundo a conter um encarte com fotos e letras de suas canções.[13] Em 2003, a Rolling Stone americana classificou-o como o melhor álbum de todos os tempos [14] e, em 2004, incluiu os Beatles em primeiro lugar na Lista dos Cem Maiores Artistas de Todos os Tempos.[15] De acordo com essa mesma revista, a música inovadora e o impacto cultural dos Beatles ajudaram a definir a década de 1960, e sua influência cultural e pop ainda continua viva e intensa nos dias de hoje.

Índice

editar Membros

editar Quinto Beatle

"Quinto Beatle" é um termo informal usado pelos fãs da banda e por vários comentaristas da imprensa ou de entretenimento, relacionado a pessoas que tiveram uma forte associação com o "quarteto de Liverpool", com exceção de Lennon, McCartney, Harrison e Starr. Foi e ainda é atribuído a:

  • Stuart Sutcliffe, pelo seu papel no início do grupo como baixista;
  • Pete Best, baterista do grupo de 1960 a 1962; substituído por Ringo Starr;
  • Neil Aspinall, gerente dos Beatles de sua criação até 1963 e, em seguida, seu assistente pessoal. Foi ao leme da empresa Apple Corps de quase quarenta anos antes de aposentar em fevereiro de 2007, um ano antes da sua morte em março de 2008;
  • Klaus Voormann, artista, amigo dos Beatles e designer das capas do Revolver e do The Beatles Anthology;
  • Brian Epstein, descobridor do grupo e, em seguida, empresário dos Beatles até a sua morte em 1967;
  • George Martin, patrono da gravadora Parlophone, uma divisão da IME, que contrata os Beatles em 1962. Neste ano em diante, ele produziu quase todos os álbuns do grupo, e escreveu a maior parte dos acordos e instrumentação com os Beatles, tocando teclados com freqüência. Ele continua, até hoje, produzindo álbuns póstumos, como a série The Beatles Anthology e a compilação Love;
  • Jimmy Nicol, baterista que substituiu Ringo Starr quando ficou doente, para uma dezena de concertos durante a turnê australiana dos Beatles em junho de 1964;
  • Derek Taylor, assessor de imprensa e confidente dos Beatles. George Harrison disse em 1988: "Só haviam dois 'quinto beatle': Neil Aspinall, e Derek Taylor";
  • Billy Preston, tecladista que participou da gravação do álbum Let It Be, e também em algumas faixas de Abbey Road (1969).

editar História

editar 1957-62: Formação

Ver artigo principal: The Quarrymen

Em Março de 1957, empolgado com o skiffle que Lonnie Donegan popularizou com seus sons improvisados, John Lennon criou uma banda composta por colegas da escola Quarry Bank School — que incluía seu melhor amigo na época, Pete Shotton — primeiramente chamada de The Black Jacks, mas logo definida como The Quarrymen (em homenagem à escola).[16] Inicialmente, sem contar os dois, a banda era composta por Eric Griffths (violão), Bill Smith (baixo improvisado) e Rod Davis (banjo). Em 6 de julho de 1957, Paul McCartney havia assistido uma apresentação da banda em uma festa na Igreja St. Peter e Ivan Vaughan, amigo de John Lennon e colega de classe de Paul, apresentou-lhe a Lennon; Paul foi convidado a ingressar na banda e, no mesmo ano, apresentou a Lennon a composição "I've Lost My Little Girl".[16] Em 6 de fevereiro de 1958, o jovem guitarrista George Harrison juntou-se à banda[17], apresentado por Paul que o teria conhecido por acaso num ônibus.[18] Apesar da relutância inicial de Lennon pelo fato de Harrison ser três anos mais novo que ele (na época, com quinze anos)[18], McCartney insistiu depois de uma demonstração de George e este terminou ingressando no grupo. Lennon e McCartney desempenharam a guitarra rítmica durante esse período e, após o baterista oficial do Quarryman Colin Hanton deixar a banda em 1959, depois de uma discussão com os outros membros, teve um alto negócio de bateristas. Stuart Sutcliffe, colega de Lennon numa escola de arte de Liverpool, aderiu ao baixo em Janeiro de 1960, à pedido do amigo.[16]

Como Paul e George estudavam no Instituto de Liverpool, não seria mais apropriado chamar a banda por Quarryman e, então, o grupo passou por uma progressão de nomes, incluindo "Johnny and The Moondogs"[b]' e "Long John and The Beatles"[c]'. Sutcliffe sugeriu o nome "The Beetles" como homenagem à Buddy Holly e The Crickets[d]. Após uma turnê com Johnny Gentle na Escócia, a banda mudou seu nome para "The Beatles". A primeira esposa de John, Cynthia Lennon, argumenta que o título "The Beatles" veio à John no Renshaw Hall bar, depois dele beber cerveja.[19] Lennon, que era conhecido por dar diversas versões da história, ironizou num artigo da revista Mersey Beat de 1971 que teve uma visão onde "um homem, numa torta flamejante, disse: 'Vocês são Beatles com A'."[20] Durante uma entrevista em 2001, McCartney atribuiu a si o nome definitivo da banda, afirmando que "John tivera a idéia de nos chamar de 'The Beetles'; eu disse: 'por que não Beatles?; você sabe, como a batida do tambor'."[e]'[21]

Em Maio de 1960, os então Silver Beetles[f] realizaram uma turnê no norte da Escócia, com o cantor Johnny Gentle, a quem a banda havia conhecido uma hora antes de sua primeira apresentação.[22] McCartney refere-se à viagem como uma grande experiência para a banda.[23] Naquela época os Beatles não tinham um baterista fixo, assim, profissionais desse gênero tocavam para eles apenas em determinadas ocasiões.

editar 1960-62: Hamburgo, o Cavern Club e Brian Epstein

O Indra Club nos dias atuais, onde os Beatles tocaram na primeira visita em Hamburgo, Alemanha

Encontrando-se sem um baterista antes de seu próximo compromisso, em Hamburgo, Alemanha, o grupo convidou Pete Best para assumir a posição em 12 de agosto de 1960. Best tinha até então tocado com o grupo The Blackjacks no The Casbah Coffee Club — uma adega em Derby, Liverpool, onde os Beatles tocavam e visitavam algumas vezes — que pertencia à sua mãe Mona Best.[24] Quatro dias após a entrada de Best, o grupo partiu para Hamburgo; lá, eram obrigados a se apresentarem seis ou sete horas por noite durante sete dias por semena e provavelmente estimulavam-se com bebidas e drogas.[25] O repertório era de covers de rock'n'roll dos anos 1950, basicamente americanos. Em 21 de novembro de 1960, Harrison foi deportado por ter mentido às autoridades alemãs sobre sua idade.[25] Após um incêndio acidental — envolvendo Paul e Pete — no quarto onde dormiam, a polícia os prendeu e os deportou em dezembro.[25] John retornou para Liverpool com eles em meados de dezembro, sem dinheiro e triste.[25] O grupo reuniu-se para uma performance em 17 de dezembro de 1960 no Casbah Club, com Chas Newby, músico que substituía Sutcliffe.[26] Ele havia ficado em Hamburgo, com sua nova paixão – Astrid Kirchherr – que conheceu por lá; embora Sutcliffe tenha voltado a Liverpool no ano seguinte, em fevereiro, para visitar amigos e a família, retornou novamente para o território alemão duas semanas depois.[25] Astrid mudou o corte de cabelo de Stuart e logo John, Paul e George adotaram penteados semelhantes, o que mais tarde se tornaria uma marca registrada da banda.[27]

Os Beatles retornaram à Hamburgo em abril de 1961, com apresentações no "Top Ten Club". Enquanto tocavam nesse local, foram recrutados pelo músico Tony Sheridan à agirem como sua banda de apoio em suas apresentações na Alemanha e numa série de gravações para a Polydor Records Alemã, produzidas pelo famoso Bert Kaempfert.[28] Paul afirmou posteriormente que o grupo chamava Sheridan de "o professor"; foram as primeiras gravações dos Beatles. [28] Mais tarde, Tony foi premiado com o disco de ouro pela vendagem acima de um milhão de cópias do LP Tony Sheridan and The Beatles.[28] Quando o grupo retornou à Liverpool, Sutcliffe permaneceu em Hamburgo, mais uma vez, com Kirchherr. McCartney assumiu as funções de baixista.[25] [29]

The Cavern Club, Liverpool, Inglaterra, em 2008: local onde os Beatles fizeram cerca de 292 apresentações e onde começaram a definir sua carreira

Retornando à Liverpool, o grupo realizou sua primeira aparição no famoso The Cavern Club, numa terça-feira de 21 de fevereiro de 1961.[30] A banda se apresentou 292 vezes no Cavern Club entre 1961 e 1963.[31] Em 9 de novembro de 1961, Brian Epstein, dono da loja de música North End Music Store (NEMS) na Great Charlotte Street, viu o grupo pela primeira vez no clube. Intrigado com o som da banda, e maravilhado com seu carisma (sobretudo o de John), Epstein decidiu empresariá-los.[32]

Em uma reunião com os Beatles na NEMS, em 10 de dezembro de 1961, Epstein propôs a idéia de gestão da banda.[33] Os Beatles assinaram um contrato de cinco anos com Epstein em 24 de janeiro de 1962 e ele tornou-se empresário oficial deles.[34] Com Brian Epstein como empresário do grupo, o primeiro passo foi mudar a imagem dos integrantes, substituindo as roupas de couro por algo mais formal.[35] Epstein conduziu a procura dos Beatles na Inglaterra em encontrar um contrato de gravação. Ele era gerente do depertamento de gravações da NEMS, ramo que seu avô deixou de herança, uma loja de instrumentos musicais, discos de música, entre outras coisas. Nessa época, ele apostou no status da NEMS como uma importante distribuidora para obter acesso à empresas de gravações e à produtores executivos. O executivo Dick Rowe da agora famosa troca Decca Records A&R respondeu-lhe na época que "bandas com guitarras estão fora de moda, Sr. Epstein".[36][37]

Enquanto Epstein negociava com a Decca, ele também abordou o executivo de marketing Ron White, da EMI.[38] White, que não desempenhava funções de produtor musical na gravadora, por sua vez contatou os produtores Norrie Paramor, Walter Ridley e Norman Newell (todos da EMI) e todos os três negaram produzirem gravações dos Beatles. Contudo, White não havia abordado o quarto produtor da EMI, e também administrador — George Martin — que estava de férias na época.[39] Os Beatles voltaram à Hamburgo a partir de 13 de abril à 31 de maio de 1962, onde fizeram uma aparesentação de abertura no The Star Club.[40] Após a chegada, foram informados que Stuart Sutcliffe estava morto devido uma hemorragia cerebral.[41]

editar 1962: Contrato de gravação e Ringo Starr

Entrada do prédio do estúdio de gravações Abbey Road Studios em 2007: local onde os Beatles gravaram durante toda sua carreira e onde mostraram pela primeira vez à George Martin o que sabiam fazer

Ainda abalados com a morte de Stu e sem perspectivas de progresso profissional, os Beatles continuaram a fazer shows em Hamburgo e Liverpool, mas visivelmente desanimados.[42]. Enquanto isso, depois de não conseguir impressionar a Decca Records, Epstein foi para a loja HMV na Rua Oxford, em Londres, e transformou os teipes que havia utilizado na Decca em um disco. Epstein conseguiu encontrar com George Martin da Parlophone (subsidiária da EMI) e levou o material. Martin, interessado no som da banda e, segundo o próprio, "considerado um produtor rebelde e independente à época" [43], aceitou uma audição. A banda então assinou um contrato de um ano renovável com a EMI.[44] A primeira sessão de gravação dos Beatles na EMI com Martin foi marcada no dia 6 de junho de 1962, no famoso Abbey Road Studios, no norte de Londres.[45] Musicalmente, George Martin não se impressinou com os Beatles, mas a personalidade dos integrantes lhe agradou.[46] George Martin concluiu que a banda tinha um talento cru e muito humor, e que poderiam melhorar musicalmente.[47]

Martin resolveu contratá-los, mas teve um problema com Pete Best, considerando-o, na época, "fraco".[35] Martin sugeriu à Epstein, particulamente, que utilizassem outro baterista nos estúdios em vez dele. Assim, a conclusão foi que Martin contrataria um baterista para as gravações, enquanto Brian poderia usar Pete Best nas apresentações.[35] Isso ocorreu, principalmente, pelo fato de que os fãs dos Beatles na época não poderiam suportar vê-los sem Best.[35][48] Os três membros-fundadores da banda–George, Paul e John–pediram à Brian que ele demitisse Pete Best, e ele foi demitido.[49] No dia 16 de agosto de 1962, Pete chega ao escritório de Brian, e esse lhe diz: "George [Martin] não quer você no grupo", o que deixa Neil Aspinall–motorista nas excursões da banda–furioso.[35] A partir disso, o grupo começou a cogitar alguns nomes para assumir a função de baterista. Entre esses nomes, estavam o de Johnny Hutchinson, que recusou por ser amigo de Pete.[35] A grande esperança deles foi convidar Richard Starkey – conhecido como Ringo Starr–que já era baterista da famosa Rory Storm and the Hurricanes, e que também já havia tocado com os Beatles em algumas apresentações de Hamburgo.[50] Em 19 de agosto, três dias após a demissão de Pete, Ringo, definitivamente como baterista, tocou com os Beatles no Cavern; a apresentação gerou confusão, pois o público repudiou a nova formação, e chegaram a gritar "Pete para sempre, Ringo nunca!", e "queremos o Pete!"; Harrison teria sido agredido nessa apresentação.[35]

O Abbey Road Studios lateralmente, focando o estacionamento, em 2007: com o "Please Please Me", lançado em 22 de março de 1963 e gravado entre 11 de setembro de 1962 à 11 de fevereiro de 1963, a banda gravou profissionalmente pela primeira vez neste prédio.

A primeira gravação dos Beatles com Lennon, McCartney, Harrison e Starr juntos aconteceu em 15 de outubro de 1960, na demonstração de uma série de gravações registradas particulamente em Hamburgo, onde atuaram simultaneamente como grupo de apoio da cantora Lu Walter.[51] Starr tocou com os Beatles em sua segunda sessão de gravação na EMI, em 4 de setembro de 1962, e Martin "alugou" o baterista Andy White – que já havia tocado com Bill Halley em 1957, apresentação que Paul assistiu em Liverpool[52]–para tocar na próxima sessão, no dia 11 de setembro.[53] A única apresentação realizada por White foi nas canções "Love Me Do" e "P.S. I Love You", incluídas no primeiro álbum da banda.[52] Nessa sessão, produzida por Ron Richards, Ringo tocou pandeiro ou outro instrumento de percussão quando a função de baterista era desenvolvida por Andy.[52]

A primeira sessão dos Beatles na EMI de Londres, em 6 de junho de 1962, não rendeu uma gravação digna de lançamento, mas as sessões de setembro produziram o hit "Love Me Do", compacto que, certo tempo depois do mesmo ano, alcançou o primeiro lugar na lista dos vinte melhores da revista Mersey Beat (em 18 de outubro) e entrou na lista dos vinte compactos mais vendidos da revista Billboard (em 1 de dezembro).

editar 1962–63: Fama no Reino Unido

Em 26 de novembro de 1962, a banda gravou seu segundo som, "Please Please Me" (não confundir com o álbum homônimo), que atingiu o primeiro lugar na Inglaterra no início de 1963. Com o lançamento da canção "Love Me Do" em outubro de 1962, os Beatles apareceram pela primeira vez na televisão, no programa People and Places, transmitida ao vivo em Manchester, na TV Granada, em 17 de outubro de 1962.[54][55] A crescente histeria que a banda começou a criar nesta época, principalmente em jovens do sexo feminino, ficou conhecida como "Beatlemania".

Em 4 de novembro de 1963, os Beatles apresentaram-se no Royal Variety Performance, em Londres, na presença da Família Real e, consequentemente, da Vossa Majestade Isabel II do Reino Unido.[27] Nessa apresentação, John teria dito: "Para a próxima música vamos pedir ajuda da platéia. As pessoas que estão nos lugares baratos, aplaudam. O resto pode chacoalhar as jóias."[27] Mais tarde, gravaram seu segundo álbum, With the Beatles, que acabou com a hegemonia de trinta semanas de Please Please Me no primeiro lugar das paradas britânicas.[27]

A banda também começou a ser notada por críticos musicais sérios. Em 23 de dezembro de 1963, o crítico musical William Mann, do The Times, publicou uma resenha descrevendo algumas teorias musicais a respeito de canções como "Till There Was You" e "I Want to Hold Your Hand".[56] A respeito do álbum With the Beatles, Mann, em 27 de dezembro de 1963, destacou a estrutura harmônica da canção "Not a Second Time", como sendo "também típica nas canções de andamento mais rápido dos Beatles, e ficamos com a impressão que pensam simultaneamente em harmonia e melodia, tal a firmeza com que as sétimas e nonas maiores e sobredominantes estão incorporadas nas canções, tal a naturalidade da cadência eóliano no fim de Not a Second Time (a sequência que conclui a Das Lied von der Erde, de Gustav Mahler".[57] Contudo, os Beatles não tinham conhecimento profundo de teoria musical na época e a resenha de Mann tranformou-se em parte do mito da banda, principalmente pelo termo "cadências eólicas" que Lennon, em 1980, comentou: "até hoje não sei o que elas são. Parecem aves exóticas."[57]

editar 1963–64: Sucesso americano

Embora a banda experimentasse uma popularidade enorme nas paradas britânicas no início de 1963, a gravadora norte-americana Capitol Records, subsidiária da EMI (em que o grupo estava contratado), negou produzir os compactos "Please Please Me" e "From Me to You", primeiro sucesso do grupo que alcançou primeiro lugar no Reino Unido.[58] Se a produção acontecesse de primeiro momento, o grupo inglês arriscaria, na mesma época, sucesso nos EUA. A Vee-Jay Records, uma pequena gravadora de Chicago, Estados Unidos, lançou esses singles como parte de um negócio para os direitos de outro intérprete. Art Roberts, diretor musical da estação de rádio World's Largest Store (WLS) de Chicago, incluiu "Please Please Me" na rádio em Fevereiro de 1963, provavelmente a primeira vez que foi ouvida uma canção dos Beatles no território americano, embora isso seja discutido; os direitos do Vee-Jay aos Beatles foram cancelados mais tarde por não-pagamento de royalty.[59][60]

Em Agosto de 1963, a Swan Records lançou "She Loves You", que também não foi executada nas rádios. Em 3 de janeiro de 1964, Jack Paar mostrou em seu programa uma apresentação de "She Loves You" gravada ao vivo na Inglaterra: foi a primeira aparição dos Beatles na televisão americana. Embora tivessem feito sucesso rapidamente na Inglaterra e sido igualmente bem sucedidos em alguns países europeus, os Beatles ainda não tinham conquistado o mercado norte-americano. Pensando em conquistar os Estados Unidos, Brian Epstein, no começo de Novembro de 1963, procurou o presidente da gravadora Capitol Records para lançar um single com a canção "I Want To Hold Your Hand", e conseguiu firmar um contrato com um popular apresentador de televisão americano, Ed Sullivan, para que os Beatles fossem até lá se apresentarem em seu programa. Antes da Capitol, como já foi citado, algumas gravadoras já haviam lançado discos dos Beatles naquele país, como a Vee-Jay e a Swan, mas nenhum sucesso tinha sido obtido. Embora não houvesse grandes expectativas pela Capitol em relação aos Beatles, a CBS (canal de televisão americano) apresentou um documentário de cinco minutos sobre o fenômeno da beatlemania na Inglaterra, no programa CBS Evening News. A primeira demonstração desse pequeno documentário seria mostrada de manhã no CBS Morning News em 22 de novembro e uma reprise passaria na tarde do mesmo dia no CBS Evening News, mas a transmissão foi cancelada por conta do assassinato de John F. Kennedy naquele dia.

Diversas estações de rádio nova-iorquinas já começavam a tocar "I Want to Hold Your Hand" na sua programação. A resposta positiva para a gravação que havia começado em Washington duplicou em Nova Iorque e rapidamente se espalhou à outros mercados. A gravação vendeu um milhão de cópias em apenas dez dias, e a revista Cashbox certificou-a em número um. Era o momento dos Beatles irem aos Estados Unidos.

No começo de 1964, a Capitol decidiu fazer valer a pena os direitos que detinha do grupo nos Estados Unidos para coincidir com a primeira excursão da banda à América. Brian Epstein foi um dos grandes responsáveis pela data marcante. Indo à Nova Iorque, elaborou com a Capitol uma mídia enorme: foram colocados seis milhões de cartazes pelas ruas dos EUA com mensagens do tipo "Os Beatles Vem Aí"; todos os discotecários das rádios receberam discos dos Beatles; e foram distribuídos um milhão de jornais com quatro páginas contando a carreira do grupo.[27] Essa elaboração de expectativa de que um grande grupo estaria vindo em direção foi a mais importante viagem na carreira dos quatro integrantes, como veremos a seguir.

editar 1964-66: A Beatlemania atravessa o Atlântico

Em 7 de fevereiro de 1964, uma multidão de quatro mil fãs ingleses no Aeroporto Heathrow acenou para os "garotos de Liverpool", que partiam pela primeira vez aos Estados Unidos como um grupo.[61] Estavam acompanhados por fotógrafos, jornalistas (incluindo Maureen Cleave, que realizou entrevistas com diversas personalidades famosas), e pelo produtor musical Phil Spector, que se tinha registrado no mesmo vôo.[62] Quando o vôo 101 da PanAm tocou o solo do recém-nomeado Aeroporto JFK em Nova York, à 13:20 da tarde do dia 7 de fevereiro de 1964, uma grande multidão de pessoas se aglomeraram no local.[63] Os Beatles foram saudados por cerca de três mil pessoas (estima-se que o aeroporto nunca tenha experimentado tal número).[64] Após uma coletiva de imprensa, os Beatles partiram em limusines para a Nova Iorque. No caminho, McCartney ouviu o seguinte comentário corrente numa rádio local: "Eles [The Beatles] acabaram de deixar o aeroporto e estão próximos de Nova Iorque..."[65] Quando alcançaram o Plaza Hotel, foram recepcionados por diversos fãs – a maioria garotas – e repórteres. Harrison teve uma febre de 39 °C no dia seguinte e ficou teve que permanecer em repouso, de modo que Neil Aspinall o substituiu no primeiro ensaio da banda para a aparição deles no The Ed Sullivan Show.[66] A persuasão de Epstein havia dado certo.[g]

Os Beatles quando chegaram no Aeroporto JFK, na Cidade de Nova Iorque, em 7 de fevereiro de 1964: essa primeira visita dos Beatles aos Estados Unidos é um dos momentos fundamentais da história da banda e, mais amplamente, do rock mundial.[63]

Os Beatles fizeram sua primeira aparição ao vivo na televisão americana no The Ed Sullivan Show, em 9 de fevereiro de 1964.[67][h] Aproximadamente 74 milhões de telespectadores – cerca da metade da população americana – assistiu o grupo tocar no programa.[68] Na manhã seguinte, muitos jornais escreveram que The Beatles não era nada mais do que uma "moda passageira",[i] e que não levariam sua música por todo o Atlântico.[69] Em 11 de fevereiro de 1964, fizeram seu primeiro concerto ao vivo nos Estados Unidos, no Washington Coliseum, em Washington, D.C.. Se a apresentação no London Palladium é considerada como o início da histeria em torno dos Beatles na Inglaterra, nos Estados Unidos esta beatlemania tomou porporções ainda maiores desde a primeira ida do conjunto em terras norte-americanas.

Acredita-se que essa primeira visita dos Beatles aos Estados Unidos é um dos momentos fundamentais da história da banda e, mais amplamente, do rock mundial.[63] A importância dessa visita é analisada por diversos ângulos através de muitos fatores, como, por exemplo, o fato de que, desde a década de 1960, os Estados Unidos já eram o maior mercado consumidor de discos do mundo; para Epstein e para o grupo, seria um prestígio começar a ser conhecido e bem vendido por lá, como era e ainda é natural nos dias de hoje.[70] O sucesso de diversas bandas inglesas e européias – U2, Oasis, Cranberries – é tido como resultado em grande parte devido à carreira dos Beatles e, particulamente, à sua estadia nos EUA.[63]

Bonecos de cera dos Beatles numa exposição em Londres, Inglaterra, de bonecos de cera de pessoas influentes do Reino Unido. Paul McCartney, Ringo Starr, John Lennon e George Harrison (esq. para direita). Note atrás dos bonecos fotografias de típicas fãs dos Beatles no auge da beatlemania.

Depois do sucesso de 1964, as gravadoras Vee-Jay e Swan aproveitaram os direitos que detinham das primeiras gravações do grupo e decidiram reeditá-las; todas as canções atingiram o top dez desta vez (a MGM e a Atco também garantiram os direitos das primeiras gravações dos Beatles com o já citado Tony Sheridan e também tiveram hits menores, como "My Bonnie Lies over the Ocean" e "Ain't She Sweet", esta última com a voz de Lennon). Além de Introducing... The Beatles, primeiro LP da banda no mercado americano,[j] [71] a Vee-Jay também editou, em 1 de outubro de 1964, o The Beatles Versus The Four Seasons, um relançamento duplo do Introducing... The Beatles com outra capa, sendo que o lado B continha canções do grupo americano The Four Seasons.[71] Através da sofreguidão da Vee-Jay em faturar em cima da recém iniciada beatlemania na América, lançou-se outros discos, como o Songs, pictures and stories of the fabulous Beatles, que foi lançado duas semanas após o disco duplo com The Four Seasons, e que nada mais era do que o quarto reingresso de Introducing The Beatles no mercado americano. "I Saw Her Standing There" foi editada como o lado B do disco da América I Want to Hold Your Hand , e também foi incluída no álbum Meet The Beatles, da Capitol. As faixas "She Loves You" e "I'll Get You" da Swan foram editados em 10 de abril de 1964, no LP The Beatles' Second Album, da Capitol. O Second Album vendeu 250 mil cópias no primeiro dia de lançamento nos EUA.[71] A Swan também editou uma versão alemã da "febre" "She Loves You", chamada "Sie Liebt Dich" e que está presente em stereo no álbum Rarities, da Capitol.

Em meados de 1964 a banda, em todo seu auge, iniciou suas primeiras aparições fora da Europa e da América do Norte, viajando para a Austrália, Escandinávia e Holanda; Ringo foi vítima de uma faringite e, hospitalizado, não pôde partir para o primeiro destino deles, o território australiano. Starr foi substituído temporariamente pelo baterista Jimmy Nicol, à convite de George Martin que, inclusive, estava lucrando juntamente com a banda desde o primeiro momento em que assinaram contrato na distante Liverpool. A estranha reação do público diante de uma figura diferente assumindo a bateria durou pouco, pois Ringo regressou com o tempo e eles partiram para a Nova Zelândia em 21 de junho de 1964.[72] Antes da volta do baterista, em Adelaide, Austrália Meridional, os Beatles foram recepcionados por cerca de trezentas mil pessoas no Adelaide Town Hall (isso evidencia o estrondo que a banda já vinha fazendo por diversos países).[73]

Em 6 de junho de 1964, o filme que se tornaria um clássico cult, sendo considerado por alguns como o grande precursor da idéia dos vídeos musicais[74]A Hard Day's Night (Os Reis do Iê, Iê, Iê no Brasil) – foi lançado no Reino Unido, sendo o primeiro a estrelar a banda. Dirigido por Richard Lester, o filme é sobre os quatro membros que tentam, em território londrino, tocar em um programa de televisão. Lançado no auge da beatlemania, inclusive focando-a na maior parte das cenas, embora sem transformá-las em um documentário, o filme foi bem recebido pela crítica e continua a ser um dos mais influentes no que se diz respeito à música.[75][76] Em paralelo, o álbum A Hard Day's Night, lançado no mesmo ano, foi o primeiro do grupo a trazer só composições de Lennon/McCartney e serviu como trilha sonora para o filme. Em novembro, lançaram o compacto "I Feel Fine" e no mês seguinte o grupo lançou seu quarto álbum: Beatles for Sale.

Em Junho de 1965, Vossa Majestade Isabel II do Reino Unido condecorou os Beatles como Membros da Ordem do Império Britânico.[77][78] O grupo foi nomeado pelo primeiro-ministro Harold Wilson, que também havia sido deputado em Huyton, Liverpool.[79] A nomeação estimulou alguns conservadores do MBE – primeiramente militares veteranos e líderes cívicos – à devolverem suas próprias insignas como protesto.[80] Em Julho do mesmo ano, o segundo filme estrelando os Beatles, Help!, foi lançado. O filme acompanhou o lançamento do albúm homônimo, que serviu como trilha sonora. Em 15 de agosto de 1965, os Beatles fizeram o primeiro concerto da história do rock and roll num estádio aberto, ao se apresentarem no estádio de beisebol Shea Stadium, Nova Iorque, para uma multidão formada por 55.600 pessoas.[81] O evento obteve uma grande notoriedade e contou com os requintes de mídia disponíveis à época e a disposição de Epstein era fazer um evento grandioso, digno de filmagens e especiais de televisão nos EUA e Inglaterra.[82] Chamados ao palco pelo já conhecido Ed Sullivan, o quarteto ampliou ainda mais seu sucesso nacional e internacional e o evento é tido como percursor: Cláudio Teran, articulista da Internet sobre os Beatles, diz o seguinte num texto sobre a data: "Sempre que um garoto for a um estádio de futebol, ou basebol para assistir ao show de uma grande banda de Rock and Roll, precisará saber que aquilo um dia começou com a ousadia dos Beatles em encarar um desafio que modificaria para sempre até o padrão técnico de sonorização de grandes ambientes pelo mundo afora."[83] Quanto à ousadia e técnica de sonorização, Teran quer dizer sobre o fato de que os conjuntos de equipamentos que seriam necessários para o concerto acontecer e para a mídia filmar eram muito pesados e exigiriam grande esforço. [82] Além disso, o sistema de iluminação, assim como o de áudio, favorecia menos facilidade do que os de hoje em dia; no entanto, as imagens que se tem registradas foram bem realizadas.[82]

O sexto álbum da banda, Rubber Soul, realizado no começo de dezembro de 1965, foi recepcionado como um grande salto do grupo para a complexidade e maturidade em sua estrutura musical,[84] por conter em suas canções letras e melodias mais elaboradas.[85] O lançamento dos compactos "Day Tripper" e "We Can Work It Out" juntamente com o sexto álbum repetiram o sucesso grandioso que o grupo mantinha desde 1963: foram aos primeiros lugares nas paradas britânicas e americanas; segundo estimativas, venderam cinco milhões do álbum e quatro milhões do compacto.[85]

editar 1966: Chicotadas e controvérsia

O ano de 1966 é visto como a data em que a banda determinou o que seria até seu final, em 1970.[85] Nessa época, o mundo já não era mais o mesmo e o grande responsável por essa mudança foram os Beatles. Entre os acontecimentos mais destacados, estão a recepção dos anglicanos frente ao Papa em Roma, a liderança de Martin Luther King na marcha pelos direitos civis nos Estados Unidos, e o bombardeio da Força Aérea Americana em Hanói, capital do Vietnam do Norte.[85] Pelo outro lado do planeta, a ciência se desenvolvia na chegada da espaçonava soviética à Vênus (primeira nave terrestre a pousar noutro planeta) e, na China, a proclamação da "Revolução Cultural", que promoveu expurgos e perseguiu intelectuais.[85] Há quarenta anos, essa agitação pelo mundo não se apresentou de forma menor nos quatro membros dos Beatles: Lennon, McCartney, Harrison e Starr.

  • Entrevista com Cleave, e a "Capa do Açougue": Em março, os Beatles foram convidados à uma entrevista com a jornalista Maureen Cleave, do jornal britânico "London Evening Standart". Nesta entrevista, John declarou com tom crítico a seguinte frase: "O cristianismo vai acabar. Vai se dissipar e depois sucumbir. Nem preciso discutir isso. Estou certo, e o tempo vai provar. Atualmente somos mais populares que Jesus Cristo".[85] A declaração não causou nenhuma polêmica na Inglaterra. Depois, a banda posou para uma sessão com o fotógrafo Bob Whitaker, que produziu fotos com matizes surrealistas. Uma dessas fotografias foi utilizada na capa do próximo álbum Yesterday and Today, que ficou cinco semanas em primeiro lugar vendendo um milhão e meio de discos[85] e só editado nos EUA, onde o quarteto está vestido com jalecos brancos e segura bonecas despedaçadas junto a pedaços de carne. O disco, referido frequentemente como "a capa do açougue" gerou polêmica nos Estados Unidos: algumas pessoas atribuíram à foto uma mensagem cifrada ou algo contra a Guerra do Vietnam, outros acharam que era uma crítica ao desmembramento dos álbuns originais dos Beatles na América.[85] A Capitol recolheu os discos e substituiu as 750 mil capas prensadas.

Após estes problemas com a "capa do açougue", o grupo iniciu sua turnê mundial de 1966 por cinco países, entre eles Alemanha, Japão, Filipinas, Estados Unidos e Canadá.[k]

  • Humilhação nas Filipinas e prêmios na Inglaterra: Embora as Filipinas estivessem sob a ditadura de Ferdinando Marcos, na capital Manilha os Beatles foram recepcionados por cinquenta mil fãs que se aglomeraram no aeroporto. A polícia filipina os separaram de Epstein e apreendeu sua bagagem, que continua maconha: isto provocou problemas com as autoridades locais.[85] Epstein obteve controle e, no dia seguinte, deram dois concertos no estádio superlotado Rizal Memorial Football Stadium. Após as apresentações, a primeira-dama Imelda Marcos organizou uma recepção no Palácio presendical para trezentos filhos de oficiais da alta patente do exército daquele país e gostaria de apresentá-los ao grupo.[86] O não comparecimento à recepção promoveu consequências inesquecíveis. No dia seguinte, jornais filipinos traziam manchetes com expressões do tipo "Imelda plantada" (The Manila Times), destacando que os Beatles haviam esnobado a primeira-dama.[87] Por causa desses acontecimentos, Epstein tentou esclarecer o mal-entendido numa coletiva, mas a transmissão sofreu interrupções técnicas. Starr lembraria anos mais tarde que o tratamento dos empregados no hotel tornaram-se mais frios depois do ocorrido e que havia ameaças de bombardeios onde os Beatles estavam hospedados.[87] O grupo foi abordado pelo responsável do Escritório de Rendas Internas que disse que os Beatles não deixariam o país até pagarem os impostos que não haviam dado desde a chegada; Epstein pagou US$ dezoito mil.[87] Os quatro membros fizeram à pé a caminhada até o avião e aproximadamente trezentos pessoas aguardavam a banda no aeroporto; na despedida, foram cuspidos, empurrados e agredidos; a renda que conseguiram nos dois concertos foi confiscada; após quarenta minutos de confusão, decolaram.[88]

De volta à Inglaterra, eufórica pela conquista da Copa do Mundo de Futebol de 1966, o grupo presenciou boas notícias, como os três troféus Ivor Novello – premiação máxima da música inglesa – que receberam por "We Can Work It Out" e "Help!" como primeiro e segundo compacto mais vendido na Inglaterra em 1965, e por "Yesterday" como a canção mais executada do ano. Artistas como Connie Francis, Johnny Mathis, Bob Goldsboro, Cliff Richard, David McCallum, as duplas Jan and Dean e Peter and Gordon interpretavam diversas canções da dupla Lennon/McCartney. Contudo, as notícias da América eram preocupantes.

  • Presley, Dylan e o "Somos mais populares que Jesus Cristo": A revista DateBook divulgava a entrevista que Lennon concedeu a Cleave destacando a frase "Somos mais populares que Jesus".[89] Fundamentalistas cristãos se indignaram com a frase de Lennon e protestaram. Uma rádio em Birmingham, Alabama, organizou um boicote a execução das canções dos Beatles, e um ato onde os discos da banda foram queimados publicamente em uma fogueira. Rapidamente diversas estações de rádio americanas recusavam-se a tocar canções dos Beatles em suas programações e, na África do Sul, houve a banição de canções do grupo em suas estaçõs de rádio por cinco anos. Houve inclusive a manifestão de Papa Paulo VI e do governo fascista de Francisco Franco, que criticaram a postura do grupo.[90]

Elvis Presley desaprovou o ativismo anti-guerra e a legalização das drogas que os Beatles vinham afirmando e mais tarde pediu ao então presidente Richard Nixon que ele proibisse a entrada dos quatro membros nos Estados Unidos.[91] Peter Guralnick escreve que "Os Beatles, segundo Elvis, [...] eram anti-americanos. Eles vinham para os EUA, faziam fortuna, e voltavam para a Inglaterra. E diziam coisas anti-americanas quando se encontravam por lá."[92] Guralnick adiciona: "Elvis acreditava que os Beatles lançaram bases para muitos dos problemas que estávamos tendo com os jovens e suas aparências imundas, bases essas encontradas na música sugestiva deles que ao mesmo tempo divertia o país durante o início dos anos 60 e meados."[93] Apesar das observações de Presley, em geral os Beatles o admiravam; Lennon, por exemplo, tinha sentimentos positivos para com ele: "Antes de Elvis, nada existia."[94] Em contraste, o renomado Bob Dylan reconhecia a contribuição dos Beatles, e afirmou: "A América deve construir estátuas dos Beatles. Eles ajudaram a trazer de volta o orgulho do país."[95]

editar 1966–69: Anos de estúdio e espiritualidade

Mais maduros, musical e pessoalmente, os Beatles dedicaram-se na gravação do Revolver, em que, em cada gravador – num total cinco equipamentos pesados que haviam sido levados ao estúdio 3 da Abbey Road Studios – um técnico operava e o outro segurava com um lápis a extremidade de laço feito pelas pontas das fitas emendadas; o resultado foi uma mistura de balada, R&B, soul e world music. Os Beatles haviam realizado seu último concerto no Monster Park, São Francisco, em 29 de agosto, 1966.[96] Este foi o último concerto da banda onde o público pagava ingresso. Sua última apresentação foi nos telhados da Apple, onde o público não pagou nada; leia sobre na próxima sub-seção. A partir de então, a banda concentrou-se apenas em gravações. Foram os momentos mais criativos do grupo. Menos de sete meses após o Revolver, os Beatles voltaram ao Abbey Road em 24 de novembro para começar a produzir seu oitavo e mais aclamado álbum,[97] Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, que os ocupou durante 129 sessões e foi lançado em 1 de junho de 1967.[98] O álbum os popularizou ainda mais.

Outro feito que popularizou o grupo – que caminhava rumo seu final – surgiu em um segmento no programa Our World, o primeiro programa do mundo ao vivo a transmitir, via satélite, imagens para o mundo inteiro. Os Beatles foram transmitidos diretamente do Abbey Road Studios e a nova canção, "All You Need Is Love", escrita por Lennon, foi gravada ao vivo durante a apresentação, embora eles tivessem preparado antecipadamente – num período de cinco dias – as gravações e a mixagem antes da transmissão.[99] A canção trazia uma mensagem de paz nos tempos da Guerra do Vietnã. Os Beatles convidaram vários amigos para participarem do evento, cantando o coro da canção – Mick Jagger, Eric Clapton, Marianne Faithfull, Keith Moon e Graham Nash. O programa foi visto por cerca de 350 milhões de pessoas em 26 países.

Poste de entrada do Strawberry Fields com várias mensagens, em Liverpool: Lennon brincava pelo local quando criança e, mais tarde, essa recordação serviu de inspiração para a canção Strawberry Fields Forever. O grande portão de aço vermelho virou ponto turístico de Liverpool.

Em novembro e dezembro de 1966, e até janeiro de 1967, os Beatles gravaram dois compactos durante as sessões do Sgt. Pepper: "Strawberry Fields Forever" e "Penny Lane", mas elas acabaram não entrando no álbum. A "Strawberry...", escrita por Lennon, – embora creditada à Lennon/McCartney – diz respeito à um orfanato patrocinado pelo Exército de Salvação Inglês, chamado "Strawberry Fields Children's home", que se localizava perto da casa de John em Woolton, Liverpool, número 25 da Avenida Beaconsfield, e onde ele pulava o muro e brincava durante a infância no espaço arborizado, com os amigos Pete Shotton, Nigel Whalley, e Ivan Vaughan.[100] Ele começou a escrevê-la em finais de 1966, em Almeria, Espanha, durante as filmagens de How I Won the War, de Richard Lester, o mesmo diretor de A Hard Day's Night.[101] A Tia Mimi sempre levava John a festivais de verão que aconteciam no orfanato de Strawberry Fields.[102] O orfanato original, contruído nos anos 1950, acabou sendo demolido e, depois, reconstruído: o que sobrou do original foi o portão vermelho de aço, ponto bem famoso de Liverpool.[102] Além dos festivais de verão continuarem acontecendo anualmente, em 1984 Yoko Ono e Sean Lennon visitaram o local e desde então contribuem para sua melhoria.[102] Tecnicamente, a estrutura desta canção é escrita com uma chave de Si bemol maior. Ela começa com uma introdução de mellotron – escrita e desempenhada por McCartney – e depois continua no refrão. Depois de um curto silêncio dos instrumentos, a canção volta para "tenebrosos" sons distintos com notas dissonantes, espalhadas com a bateria, e depois Lennon diz: "cranberry sauce", ou seja, doce de oxicoco.[103] Nessa mesma canção, John diz: "Eu enterrei Paul" e a canção foi incluída na lista de itens que reúnem fatos onde os Beatles queriam mostrar que Paul estava morto e que outro cantor o substituía.[104][105] (Para mais informações, veja Boato da morte de Paul McCartney.) A recepção da canção foi satisfatória: atingiu o oitavo lugar na parada dos EUA, onde numerosos críticos a consideraram a melhor canção do grupo e, em 2004, foi posta em 74ª na Lista dos 500 Maiores Sons de Todos os Tempos, da Rolling Stone americana.[106]

Vista da Penny Lane, em Liverpool: os Beatles frequentavam o local diversas vezes e, mais tarde, essas rescordações fizeram Paul produzir Penny Lane. Repare na placa da rua, no canto esquerdo, como ela traz diversas mensagens, possivelmente criadas por fãs da banda.

Em contraste com "Strawberry...", onde Lennon inspirou-se em recordações do passado, "Penny Lane", escrita por Paul – embora igualmente creditada à Lennon/McCartney –, que traz melodia e ritmo menos "tenebrosos" que a anterior, também faz menção à recordações de McCartney: o cruzamento de cinco ruas formando uma rótula de trânsito – roundabout, como dizem os ingleses – em Liverpool, chamado "Penny Lane Roundabout", é uma área, hoje muito famosa por causa da canção, onde John e George nasceram perto e, consecutivamente, onde os Beatles frequentavam muito.[107] A primeira mulher de John, Cynthia Lennon, tinha um apartamento em Penny Lane e trabalhava na loja Woolworth, a uma quadra dali.[107] Durante muito tempo, quase diariamente, a prefeitura local precisava trocar as placas da rua, pois, por virar ponto turístico, os fãs da banda a retiravam e levavam consigo ou, em outros casos, rabiscavam; agora as placas de Penny Lane foram abolidas e o nome passou a ser pintado diretamente nas paredes dos prédios da rua.[107] Na letra da canção, é como se Paul fosse o guia-turístico de uma excursão para o local: ele refere-se, por exemplo, à um "barbeiro mostrando fotografias de cada cabeça que teve o prazer de conhecer" – há um edifício branco numa das esquinas da rua, chamado Tony Slavin, que era o local onde Mr. Bioletti, o barbeiro, trabalhava e onde a barbearia funcionava – e a outros pontos da cidade; Paul diz na canção: "Penny Lane está em meus ouvidos e em meus olhos". Ao contrário do vídeo promocional de "Strawberry...", o qual o grupo gravou em outro local que não o orfanato, o vídeo musical de "Penny Lane" foi filmado na própria Penny Lane. Entre os instrumentos usados no som, destacam-se a conga, o flautim e os pianos, ao todo quatro. A canção também obteve uma recepção satisfatória: alcançou o primeiro lugar na Billboard Hot 100 por uma semana e, em 2004, foi incluída pela Rolling Stone americana na Lista dos 500 Maiores Sons de Todos os Tempos, permanecendo em 449ª lugar.

Em 24 de agosto de 1967, os Beatles encontraram-se com o Maharishi Mahesh Yogi no Hotel Hilton de Londres. Poucos dias depois, foram para Bangor, norte do País de Gales, para assistirem uma conferência "inicial" de fim de semana. Lá, o Maharishi deu a cada um deles um mantra.[108][109] Embora estivessem em Bangor, os Beatles ficaram sabendo que Brian Epstein, o empresário da banda, aquele cujo nome foi muito responsável pelo sucesso do grupo, estava morto, aos 32 anos, devido, segundo o laudo, "morte acidental por overdose de Carbitol", medicamento para insônia. Em finais de 1967, receberam sua grande primeira crítica da imprensa britânica, crítica essa que era um conjunto de opiniões depreciativas sobre o filme de televisão surrealista Magical Mistery Tour.[110] A trilha sonora de Magical Mistery Tour foi lançada no Reino Unido em um EP duplo, e nos EUA em um LP completo (atualmente, a versão oficial é esse LP).

Os quatro músicos passaram os primeiros meses de 1968 em Rishikesh, Uttar Pradesh, na Índia, estudando meditação transcendental com o Maharishi Mahesh Yogi.[111] O ashram de Mahesh Yogi inspirou a criatividade do quarteto e devido à suas estadias nele, produziram algumas canções com referências à espiritualidade que a Índia tanto afirmava; canções essas que podem ser encontradas no White Album e em Abbey Road com composições de Lennon, McCartney e Harrison.[112] Regressando, John Lennon e Paul foram para Nova Iorque anunciar a formação da Apple Records, uma corporação multimídia fundada em janeiro de 1968 pela banda com o intuito de substituir a sua empresa anterior (Beatles Ltd.), e de modo a formar um conglomerado.[113] Em meados de 1968 a banda manteve-se ocupada no processo de gravação do álbum duplo The Beatles, conhecido popularmente como "Álbum Branco" por conta da capa ter cobertura branca. Essas sessões foram o cenário de desentendimentos entre os integrantes, com Starr deixando temporariamente a banda. Sem Starr, Paul assumiu a bateria e instrumentos de percussão nas faixas "Martha My Dear", "Wild Honey Pie", "Dear Prudence" e "Back in the USSR". As dissensões tiveram diversos motivos, sempre muito debatidos: a excessiva presença da nova namorada de Lennon, Yoko Ono, nas gravações; a arrogância de McCartney, que passava a querer ser o líder do grupo; ficou ainda mais difícil o grupo aceitar novas canções de Harrison para serem incluídas em seus álbuns.[114]

Com a morte de Epstein, o grupo necessitava de um novo empresário: em relação ao lado empresarial, Lennon, Harrison e Starr queriam o gerente nova-iorquino Allen Klein para gerir os Beatles, mas McCartney queria o empresário Lee Eastman, pelo motivo dele ser até então o pai da então-namorada de Paul, e futura esposa, Linda. Os outros três membros viam em Eastman um empresário que colocaria os interesses de Paul antes das do grupo (durante uma entrevista no Anthology, McCartney disse: "Olhando para trás, posso entender porque eles sentiam que Eastman tinha interesses tendenciosos a mim e contra eles.") Em 1971, descobriu-se que Klein, que havia sido nomeado gestor, roubou cinco milhões de libras esterlinas das explorações dos Beatles.

editar Retomando: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band

Retomando a época de criação do Sgt. Pepper's..., como é comumente tratado, "foi um momento decisivo na história da civilização ocidental", segundo a descrição de um crítico do The Times.[115] Semanas depois do lançamento do disco, Jimi Hendrix já tocava a faixa-título em seus concertos, o que deixou McCartney particulamente emocionado.[98] [115] Além de ter sido o primeiro álbum de rock a ganhar os Grammys de "melhor álbum do ano", "melhor álbum contemporâneo", a "melhor capa" e a "melhor engenharia de som",[115] o Sgt. Pepper's..., quando colocado no mercado, bateu todos os recordes de venda: vendeu um quarto de milhão de exemplares na Grã-Bretanha (somente na primeira semana), permaneceu durante quase meio ano consecutivo no primeiro lugar do topo de vendas – feito praticamente impensável hoje em dia – e é tido como vanguarda, principalmente pela originalidade da capa que, inclusive, inspirou artistas do mundo inteiro. [98] McCartney é tido como o responsável pela idéia da capa. [116] Ele havia esboçado um desenho onde uma multidão assistia a banda Sgt. Pepper e recebia do prefeito uma copa ou troféu. Robert Frazer, comerciante de arte e conhecido do grupo, levou Paul à conhecer Peter Blake, um dos artistas pioneiros e fundadores da Pop Art; Blake desenhou toda a capa, adicionando pessoas influentes de todo o mundo – escolhidas por Lennon, Harrison, Starr e, claro, Paul – caracterizadas como bonecos de papelão, sem contar os bonecos de cera dos Beatles. [116]

editar 1969-70: Último concerto e fim